Quando a noite cai o morcego aparece pelos quintais, em cidades, em meios rurais e um pouco por todo o lado e por todo o mundo.

Anunciando a chegada da noite, ele sai do seu refúgio onde passou o dia de cabeça para baixo, numa caverna, como um bebé dentro do útero, que se prepara para nascer. Quando um bebé se prepara para nascer, está pronto para deixar para trás a realidade que conhece dentro do útero e começar uma nova forma de viver, que é completamente desconhecida para ele.

Quando o bebé se vira de cabeça para baixo, como um morcego, está pronto para nascer para uma nova realidade, onde vai poder crescer e aprender coisas novas.

A criança que nasce, morre para a realidade do útero, que se tornou pequeno para ela e arrisca sair em direção à luz no fundo do túnel, onde vai poder nascer.

Morte e renascimento vivem de mãos dadas e são uma constante da vida. O dia morre e renasce a noite, todos os dias. E depois da parte mais escura da noite, logo começa a amanhecer. A cada inspiração e expiração que dás, células morrem e no seu lugar outras renascem. Quando a onda rebenta na areia, logo outra onda se forma. Para haver flor, a folha tinha caído e a sua morte deu lugar a fertilizante para a nova vida, que um dia virará fruto. E do Inverno que morre, renasce a primavera. A vida não existe sem a morte e a morte não existe sem a vida.

O Morcego é um arquétipo de morte e renascimento, é uma representação da energia da mudança, que nos convida a largar o conhecido, a largar velhos hábitos, que não já não nos servem, nem contribuem para o nosso bem-estar. E para largarmos velhos hábitos e padrões de comportamento é necessário olhar para os nossos maiores medos de frente.

Vários povos de todo o mundo e das várias épocas olharam de perto para o escuro do morcego. Os Celtas, por exemplo consideravam o morcego um mediador entre este mundo e o outro. Para a Grécia antiga estavam ligados aos mistérios e demónios do outro mundo. Para os Maias representavam a ligação entre este mundo e o inferno e a morte. Para alguns povos indígenas americanos eram usados na cura.

Mulheres morreram queimadas na fogueira por serem vistas perto de morcegos e alegadamente os usarem nos seus bruxedos como ingredientes de poções mágicas. O voo mágico da bruxa numa vassoura lembra os morcegos que saem à noite e voam silenciosamente.

Nos últimos séculos entrou em contos de vampiros, como sugador de sangue, ligado sempre à escuridão da noite.

Ainda hoje é um arquétipo adoptado pelo Batman, o super heroí que vive à noite, disfarçado, misterioso e oculto numa cave. É dos poucos super-heroís humanos, com características 100% humanas, lembrando e remetendo-nos para o nosso próprio lado escuro.

Em tradições xamânicas como a dos Azetecas, Toltecas e Maias o morcego era o símbolo de iniciação dos xamãs. Pois o que é um Xamã senão alguém que já encarou os seus medos de frente? Senão alguém que conhece a sua intimamente a sua sombra? O Xamã é alguém que deixou para trás a sua identidade, desapegou-se da forma, para poder recomeçar uma vida a ajudar os outros a desapegarem-se de formas velhas; é alguém que ajuda outros a encaram os medos que os perseguem.

Pela sua ligação com a noite o morcego foi considerado um animal ligado aos mistérios escuros, pela sua aparição ao anoitecer, ou pela noite escura, passando o dia em grutas, ou locais escuros e ocultos da luz do dia.

E que é o oculto senão apenas aquilo que não é visto?

O que é o oculto senão aquilo que não conhecemos, aquilo que não temos consciência?

Encarar o escuro da nossa alma não é tarefa fácil. Talvez por isso seja tão fácil pegar neste arquétipo e colocá-lo como algo demoníaco, escuro como a noite, que nos assalta em pesadelos, porque aquilo que está no escuro é aquilo que não conhecemos. E o desconhecido cria fantasias medrosas nas esquinas suspeitas da mente.

O que são os medos senão aquilo que nos prende ao conhecido?

O que são os medos senão aquilo que não nos deixa arriscar sair do conforto do que é previsível, do que achamos que controlamos?

Quantos medos ilusórios nos perseguem nos meandros da mente?

O arquétipo do Morcego fala da morte do ego, ou de parte dele, pelo menos. O ego guarda aquilo que ignoramos, aquilo está no escuro, metido para dentro pela dor que nos provoca.

O escuro da noite esconde muitas coisas: o medo de não sermos suficientes, medo de sermos nós mesmos, medo de não sermos amados, medo de não sermos capazes, medo da nossa própria sombra.

Lá no fundo do nosso inferno pessoal, temos medo do que vamos encontrar e por isso reprimimos as nossas emoções. E o medo do escuro faz-nos acreditar que mergulhar nessa caverna escura vai trazer à luz os maiores pesadelos, as maiores escuridões… imaginamos o maior sofrimento, fazemos filmes de vampiros, e escudamo-nos de olhar, de sentir… e tudo isso é apenas ilusão, mentira contada pelo medo, o guarda-prisional a mando do ego.

O Morcego recorda-nos das forças que suprimimos dentro de nós, que não queremos ver, que não queremos sentir, pela força incontrolável que imaginamos que elas têm. Na verdade trazer esse escuro cá para fora é apenas iluminá-lo, vê-lo à luz. Quando mergulhamos a fundo dentro de nós com olhos de ver, iluminamos o escuro e descobrimos que é só um filme: somos apenas humanos! não somos monstros!

Os morcegos têm uma espécie de sonar no nariz que ajuda a discernir por onde andam. A sua manobra no escuro através de eco-localização dá-lhe o poder de percepção de distinguir o que é real do que é ilusório. Ele ajuda-nos a focar no nosso sentido, nas sensações do nosso corpo, no nosso sentido de orientação, desconfiando das mentiras da nossa mente.

Este animal de poder ajuda a discernir na escuridão. Aprendemos a distinguir que grande parte dos medos são apenas ilusões. E como um raio de aurora podemos então começar um novo capítulo da nossa vida.

O Morcego ajuda a cortar o cordão umbilical a situações que já não nos servem e ao nascimento para uma nova realidade. É o fim de uma vida e o começo de outra.

O bebé quando se prepara para nascer não sabe o que o espera, se ficar apegado ao que conhece corre o perigo de não nascer, ou de nascer morto. Encarar o medo do desconhecido e arriscar, sem saber no que vai dar, faz-nos renascer, renovar e viver.

Ao apegarmo-nos ao conhecido damos lugar à estagnação e deixamos passar as oportunidades e quando nos damos conta estamos velhos e a vida passou. O Morcego ajuda-nos no desapego do passado, que permite crescimento espiritual e renova a forma como sentimos, a forma como pensamos e como vivemos.

E na vida tudo muda, abraça essa mudança, essa morte! Na vida tudo passa! Na vida tudo morre e renasce, tudo é transitório!

Deixa que amanheça o que desejas para ti. Deixa que renasças como o dia, na aurora que vem depois do escuro da noite. Pois a morte não existe sem renascimento, e o renascimento precisa do largar do velho para dar lugar ao novo.

Que o morcego te ajude a discernir o que te persegue no escuro da noite e que possas ver o nascer de um novo dia, renovado e renascido, tendo clarificado a ilusão que te prende longe de quem verdadeiramente és!

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